Interioridade, vácuo e elaboração de catástrofes: o impulso para continuar em três romances de Sandro Veronesi.
Li os três romances de Sandro Veronesi publicados pela Editora Autêntica, O Colibri, Setembro Negro e Caos Calmo, traduzidos por Karina Jannini e pensei muito nos romances de Elvira Vigna. Essa aproximação ocorre não só pela engenhosidade narratológica e por seus preciosos perspectivismos, mas pelo escrutínio do anômalo que rege a constituição das famílias, das dores, dos lutos e da imanência de consciências que se espacializam em casas, objetos, cartas e e-mails. Há algo de Vigna, que elabora e tenta transmitir os jogos libidinais e as tensões de classe sexual que compõem um ethos do segredo, que nos romances de Veronesi se investe no perscrutar e deslindar das linhas de força e de fuga que forjam sobretudo o masculino às voltas com abismos, a priori, intransponíveis.
Compartilhada por todos os três romances, a epígrafe retirada da obra O Inominável, de Beckett, “Não posso continuar. Continuarei”, prefigura o impulso dos três protagonistas, Pietro Paladini, Marco Carrera e Gigio Bellandi e também de outras heroínas e heróis comuns que, a despeito da agonia do colapso, a ultrapassam, recusando-se a deixar que a força letárgica assuma a materialidade de suas existências. Vale comentar que em uma dessas obras o “Continuarei.” da epígrafe se rasura pelo gesto radical do protagonista.
A travessia por esses abismos ocorre sem qualquer espécie de reordenamento simbólico, os personagens retornam dessa agônica clivagem não porque o sentido tenha sido restituído à vida pelo Outro, mas porque, ao operarem a destituição subjetiva, encontram no sinthoma a amarração íntima que os permite subsistir. Seja por meio da mãe do menino com síndrome de Down, em Caos Calmo, do amigo premonitório, em O Colibri, ou ainda da irmã que também migra para o Reino Unido, em Setembro Negro, os personagens ultrapassam o desastre não pela via da significação, mas pela assunção de um impulso que teima em insistir para além da falha estrutural do mundo. Fico com a sensação de que a virtuose estilística, a construção fenomenológica e o manejo arquitetônico de personagens, praias, praças, casarões e apartamentos que estruturam a linguagem dos três romances de Veronesi negociam intermitentemente e inconscientemente uma recusa ao engodo da racionalidade burguesa.
Nos três romances de Veronesi, o mar deixa de ser mero cenário geográfico para assumir o peso ontológico e o fluxo dialético de um personagem ativo, corporifica a própria irrupção do devir, uma força que, longe de funcionar como mera miragem reconfortante, descontrói as amarras defensivas do sujeito e o lança diante do abertura do desejo. Em Caos Calmo, é nas profundezas de suas águas outrora familiares que se encena o paradoxo e o trauma advindos do resgate marítimo. Essa mesma força oceânica, vertiginosa e precipitadora de afetos, ressurge nas marés existenciais de O Colibri. Por fim, no mítico verão de 1972, em Setembro Negro, as águas da praia na costa da Toscana passam por uma transvaloração, deixam de ser o território utópico da infância para converter-se no horizonte da perda da inocência, tornando-se testemunhas de como a miséria humana se transmite, como herança, crime, fuga, memória.
A composição dramática e espacial dos romances negociam o tempo todo com a fragmentação de sentidos que poderiam ser absolutizáveis pelo trauma, mas escapam ao destino narrativo previsível. Em O Colibri, a quebra da linearidade se dá através de uma voz narrativa em terceira pessoa que acompanha Marco Carrera, constantemente acossada e posta em suspeição por um aglutinar de e-mails, cartas e mensagens de texto. Estilhaços documentais e narrativos que expõem o fracasso do masculino em encarnar a impostura fálica de redenção, controle e completude diante da irrupção do Real. O dispêndio de Marco Carrera em encenar o controle da entropia e administrar teatralmente as tragédias, as mortes e os lutos familiares é radicalmente contrastado pela estrutura fragmentada do romance, cujas discordâncias, brechas ambíguas e silêncios expõem as falhas e a incompletude que o habitam como sujeito. Ao longo de sua jornada, o heroísmo de Carrera reside em sua capacidade mimética de resistir diante das perdas, elaborando uma espécie de destituição subjetiva em vida, operação que negociaria a derrocada de sua fantasia de controle.
Só que, a despeito da epígrafe, sobretudo no que tange ao imperativo do “Continuarei”, Carrera, ao esgotar os recursos do simbólico na tentativa de conferir sentido ao inominável, reconhece que nem o irmão, a amada, o jogo de cartas, tampouco a neta, possuem respostas, e que nenhum Outro, ou palavra ou linguagem suturará sua ferida. Como ser obstinado se faz artífice empenhado em uma tarefa inconclusa de se despir de seus semblantes e defesas burguesas para encarar a própria castração e vulnerabilidade sem demandar garantias ao mundo.
Contudo, o desfecho trágico implode aquele farol beckettiano do “Continuarei”, o planejamento estético e estratégico de seu fim se configura não como destituição subjetiva, mas como uma passagem ao ato, ponto em que o sujeito, reduzido ao estatuto de resto diante da degeneração física, aqui um Real abrupto e ainda mais inexorável dos que os demais porque esse habita sua matéria, abdica de qualquer mediação e encena um último e paradoxal gesto fálico de controle, preferindo abandonar a cena a se deixar arrastar pela correnteza não calculada da vida.
Por sua vez, Setembro Negro instaura um abismo temporal sustentado pela agônica clivagem entre a perspectiva da infância, o menino Gigio Bellandi descobrindo o desejo, a música e a violência do trauma no verão toscano de 1972, e a voz reflexiva e analítica do homem maduro que, aos sessenta anos, narra a partir da nostalgia e danos redimensionados por uma lupa metafísica.
Narrado em primeira pessoa a partir do próprio oxímoro que lhe dá título, Caos Calmo apresenta e esculpe uma ecologia marítima e urbana que faz coexistir estagnação melancólica e uma pulsão de vida antiburguesa que recusa em performar o luto higienizado e produtivo exigido pelo Outro social. Se o mundo interno de Pietro Paladini está em fratura e turbulência, sua presença exterior sabota a engrenagem neoliberal por meio de uma inércia prolongada. Essa estagnação na intimidade da dor é tensionada pelo surpreendente repertório psíquico da filha, que, demonstrando sensibilidade e maturidade precoces, pede para que o pai não permaneça mais na porta da escola. Ao enunciar esse limite, a criança barra o transbordamento imaginário do luto paterno e convoca o sujeito a sair daquela posição de força paralisante.
Longe de buscarem uma síntese integradora ou uma redução psicologizante que suture a dor e o trauma, as múltiplas vozes, temporalidades e arcos dramáticos, os romances de Veronesi convertem a tragédia, os abismos e as mortes na própria matéria-prima do colapso e do devir insondável, um cenário onde, esvaziado de ilusões e garantias, ao sujeito resta apenas confrontar a insistência da pulsão e, diante da impossibilidade de seguir, decidir continuar.


Texto excelente, Ludi!